Software pago vs. gratuito: quanto você realmente gasta, e a quem pertence o que você usa

Existe uma mudança silenciosa acontecendo no mundo do software. Não é sobre qual programa é melhor tecnicamente. É sobre quem decide quanto você paga, quando você paga — e o que acontece com seu acesso quando você para de pagar.

Este artigo faz dois movimentos. Primeiro, coloca números reais na mesa: o que custam os softwares proprietários mais usados em 2026, e o que as alternativas gratuitas entregam em troca. Segundo, examina a tendência que está por trás desses números: a migração de todo o mercado de software para o modelo de assinatura — e o que isso significa para empresas pequenas a longo prazo.


Parte 1 — Os números de 2026

Microsoft 365 vs. LibreOffice / ONLYOFFICE

O Microsoft 365 passou por dois reajustes significativos nos últimos dois anos. No início de 2025, as versões para usuários individuais subiram até 41,7% no Brasil: a versão Personal passou de R$ 36 para R$ 51 por mês, e a Family de R$ 45 para valores ainda maiores. Em julho de 2026, as versões comerciais também foram reajustadas — o Microsoft 365 Business Basic subiu de US$ 6 para US$ 7 por usuário/mês, e versões superiores seguiram a mesma direção, com aumentos que chegam a 33%.

A justificativa oficial da Microsoft foi a integração de mais de 1.100 novos recursos, incluindo o Copilot, seu assistente de inteligência artificial. O detalhe: o Copilot completo não está incluído nos planos — é vendido separadamente por US$ 30 mensais por usuário (cerca de R$ 163 ao câmbio atual).

PlanoCusto mensal (por usuário)Anual (10 usuários)
Microsoft 365 Business BasicUS$ 7 (~R$ 38)~R$ 4.560
Microsoft 365 Business StandardUS$ 13 (~R$ 71)~R$ 8.520
Microsoft 365 Business PremiumUS$ 22 (~R$ 120)~R$ 14.400
LibreOfficeR$ 0R$ 0
ONLYOFFICE (auto-hospedado)R$ 0R$ 0

O LibreOffice abre, edita e salva arquivos Word, Excel e PowerPoint. Funciona offline, não exige conta, não envia dados para nenhum servidor. Para a esmagadora maioria das pequenas empresas — que usam documentos, planilhas e apresentações no dia a dia — ele cobre 100% das necessidades.

A pergunta honesta não é “o LibreOffice substitui o Office?” — para uso básico e intermediário, substitui. A pergunta é: “o que você usa no Office que o LibreOffice não faz?” Se a resposta for “nada específico”, a economia é imediata.

Adobe Creative Cloud vs. alternativas

A Adobe migrou para o modelo de assinatura em 2013 e nunca voltou atrás. Em 2026, os preços para empresas no Brasil giram em torno de:

  • Photoshop individual: R$ 65/mês (após desconto de novembro de 2025)
  • Creative Cloud completo (todos os apps): R$ 214/mês por usuário
  • Para empresas: entre US$ 35,99 e US$ 89,99 por usuário/mês no plano anual

Uma equipe de 5 pessoas usando o Creative Cloud completo gasta entre R$ 10.000 e R$ 13.000 por ano — só em assinatura de software.

Software AdobePreço mensal (BR)Alternativa gratuitaQualidade
PhotoshopR$ 65GIMPBoa para uso corporativo
IllustratorR$ 65InkscapeProfissional
Premiere ProR$ 65Kdenlive / DaVinciProfissional
After EffectsR$ 65NatronIntermediária
InDesignR$ 65ScribusBoa
Creative Cloud completoR$ 214Suite completa open sourceR$ 0

AutoCAD vs. FreeCAD / LibreCAD

A Autodesk eliminou as licenças perpétuas entre 2016 e 2021 e migrou totalmente para assinatura. O resultado: o preço por usuário foi de aproximadamente US$ 1.680 em 2020 para aproximadamente US$ 2.310 em 2026 — um aumento acumulado de 37,5%. A versão atual (AutoCAD 2027) custa US$ 2.095 por usuário ao ano no mercado norte-americano. SmartCAD

No Brasil, revendedores oferecem licenças a partir de R$ 9.751 por ano — e a versão oficial da Autodesk segue o câmbio.

As alternativas open source:

SoftwarePreço anualFuncionalidade
AutoCAD~R$ 9.751/usuário/ano2D e 3D profissional
LibreCADR$ 02D técnico, abre DWG/DXF
FreeCADR$ 03D paramétrico, engenharia
QCADR$ 0 (versão community)2D técnico

Para projetos 2D técnicos — que representam boa parte do uso de AutoCAD em pequenas empresas de arquitetura e engenharia — o LibreCAD cobre as necessidades. Para projetos 3D paramétricos, o FreeCAD amadureceu significativamente nos últimos anos e é usado profissionalmente em vários países.

VMware vs. VirtualBox / Proxmox — o caso mais dramático

A história do VMware depois da aquisição pela Broadcom em novembro de 2023 é o exemplo mais extremo do que pode acontecer quando uma empresa decide mudar as regras do jogo.

A Broadcom eliminou completamente as licenças perpétuas e migrou tudo para assinatura anual, com um mínimo obrigatório de 72 núcleos. Para pequenas e médias empresas, isso aumentou dramaticamente os custos de base. SoftwareSeni

Os números documentados são difíceis de acreditar: o Gartner cita aumentos típicos de 300 a 400%, a associação europeia de nuvem CISPE reportou aumentos de renovação de 800 a 1.500% à Comissão Europeia, e a AT&T registrou em documentos judiciais um aumento de 1.050% no valor que lhe foi cotado. Glaeser-it

Uma pesquisa da Gartner de janeiro de 2026 com 182 líderes de TI encontrou 76% com sentimento negativo em relação à gestão da Broadcom do VMware, e 67% avaliando ativamente alternativas. Bex

As alternativas gratuitas que estão absorvendo essa migração:

SoftwarePreçoUso
VMware vSphere (Broadcom)Assinatura, aumentos de 300-1500%Virtualização empresarial
VirtualBox (Oracle)GratuitoDesktop e laboratório
Proxmox VEGratuito (suporte opcional)Virtualização empresarial
KVM/QEMUGratuitoVirtualização em servidores Linux

O Proxmox em particular virou destino principal de quem está migrando do VMware — é open source, roda em servidores comuns, tem interface web e suporta os mesmos workloads.


Parte 2 — A tendência que está por trás de tudo isso

De “comprar” para “alugar”: como o mercado mudou

Há dez anos, comprar software significava pagar uma vez e ter o programa. O CD ou o arquivo de instalação era seu. Você decidia quando atualizar — ou se atualizava. O software não parava de funcionar se você não renovasse um contrato.

Esse modelo foi sistematicamente abandonado pela indústria. A transição começou com serviços online — faz sentido pagar mensalmente por um serviço que custa dinheiro para manter rodando. Mas foi se expandindo para software que você instala localmente e que, tecnicamente, poderia funcionar sem nenhum servidor externo.

A Adobe foi pioneira quando migrou o Creative Suite para o Creative Cloud em 2013. Não foi uma decisão técnica — foi uma decisão financeira. A mudança das licenças perpétuas para o modelo de assinatura foi recebida com críticas significativas. A empresa foi em frente assim mesmo. O resultado financeiro foi excelente para a Adobe: receita previsível, crescimento constante, clientes que não podem simplesmente “ficar na versão antiga” indefinidamente. Wikipedia

O mercado percebeu. A Autodesk fez o mesmo com o AutoCAD. A Broadcom fez isso de forma brutal com o VMware. A Microsoft empurrou cada vez mais o Office para o 365. Em 2026, a decisão sobre qual sistema operacional ou software usar depende menos do hábito e mais do custo de trabalho, tipo de dispositivo, expectativas de segurança e custo de longo prazo. Code Carbon

O que a assinatura muda fundamentalmente

Além do custo, há uma mudança estrutural que muitas empresas não percebem imediatamente:

Você não tem mais o software. Você tem acesso ao software enquanto paga. Quando para de pagar, perde o acesso — e em alguns casos, perde o acesso aos próprios arquivos criados nele, se o formato for proprietário.

Com o Microsoft 365, se você cancelar a assinatura, o Word entra em “modo de funcionalidade reduzida” — você pode ler documentos, mas não editar. Com o Creative Cloud da Adobe, os arquivos em formato nativo (.PSD, .AI, .INDD) continuam existindo no seu computador, mas você precisa do software para abri-los. E o software, sem assinatura, não abre.

Isso cria uma dependência que vai além do preço atual. Cria um custo de saída — quanto mais tempo você usa, mais difícil e caro fica sair.

O modelo de assinatura se espalhou para além do software

A lógica do software como serviço contaminou outras categorias:

  • Sistemas operacionais: a Microsoft está testando modelos de Windows como serviço para empresas
  • Jogos: Xbox Game Pass, PlayStation Plus — você não compra o jogo, assina o acesso
  • Ferramentas de hardware: impressoras que cobram por página impressa via assinatura, carros com funcionalidades desbloqueadas por mensalidade
  • IA: o Copilot da Microsoft custa US$ 30/usuário/mês adicionais; o Claude, o ChatGPT, o Gemini — todos têm camadas pagas crescentes
  • Segurança: antivírus, firewalls e ferramentas de backup migraram quase completamente para assinatura

De onde vem o dinheiro dos softwares gratuitos

Uma pergunta legítima: se é gratuito, quem paga o desenvolvimento?

Os modelos são variados e vale entender cada um:

Grandes empresas como financiadoras: o kernel Linux é desenvolvido em parte por engenheiros pagos pela Red Hat (IBM), Google, Microsoft, Intel e outras que dependem do Linux para seus negócios. O VirtualBox é mantido pela Oracle. O Android é mantido pelo Google. Elas investem porque têm interesse direto no sucesso dessas tecnologias.

Versões Pro e suporte pago: o LibreOffice tem a The Document Foundation como mantenedora, sustentada por doações e por empresas que pagam por versões com suporte corporativo. O Proxmox é gratuito, mas vende contratos de suporte. O FreeCAD tem modelo similar. Você usa de graça; quem precisa de SLA e suporte garantido paga.

Comunidade e entusiastas: projetos como GIMP, Inkscape e Audacity são desenvolvidos por voluntários ao redor do mundo — programadores que usam o software e contribuem com código, documentação e testes. Esse modelo produziu ferramentas de qualidade profissional ao longo de décadas.

Fundações sem fins lucrativos: Mozilla (Firefox), Wikipedia, KDE, GNOME — organizações que recebem doações e mantêm software público. O Firefox compete com o Chrome sem precisar ser rentável por usuário.

Duplo licenciamento: alguns projetos são gratuitos para uso pessoal e open source, mas cobram licença para uso comercial ou oferecem versão empresarial paga. O QCAD funciona assim — versão community gratuita, versão Pro paga.


Conclusão

Os números de 2026 mostram uma tendência clara: software proprietário fica mais caro todo ano, o modelo de assinatura remove o controle do usuário sobre o que ele usa, e o custo de saída cresce com o tempo de dependência.

As alternativas open source não são perfeitas — têm curvas de aprendizado, às vezes interface menos polida, e não cobrem 100% dos casos de uso especializados. Mas para a esmagadora maioria do uso corporativo de uma pequena empresa — documentos, planilhas, apresentações, e-mail, navegador, compactação, notas —cobrem o necessário com qualidade. E sem custo mensal que cresce a cada renovação.

A escolha entre software pago e gratuito não é só uma decisão técnica. É uma decisão sobre autonomia: quem controla o acesso ao que você usa para trabalhar, e quem decide o preço disso amanhã.

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